"Cães amam seus amigos e mordem seus inimigos, bem diferente das pessoas, que são incapazes de sentir amor puro e têm sempre que misturar amor e ódio em suas relações." (Sigmund Freud)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A renovação da águia



Existem dois tipos de águia no Brasil: a do jogo do bicho e a águia-pescadora, pertencente à Família das Pandionidae, também conhecida como como águia-pesqueira, águia-do-mar, guincho ou sangual. Segundo o CEMAVE do IBAMA, a águia-pescadora (Pandion haliaetus) vem do hemisfério Norte, periodicamente, nos visitar.
Essa historinha edificante não diz qual das águias, ave de rapina da Ordem dos Falconiformes, teria o suposto comportamento descrito: a águia-pescadora, que nos visita de vez em quando, a Aquila chrysaetos, a Aquila heliacasuaou a sua famosa prima Haliaeetus leucocephalus o símbolo dos Estados Unidos e também conhecida como águia careca (bald eagle).
Na verdade, nenhuma delas apresenta o comportamento descrito. A mensagem com traços de auto-ajuda circula em mensagens, está presente em várias páginas da web e também possui versão em pps.
Segundo essa lenda, ao completar quarenta anos de idade as garras das águias ficam flexíveis e não mais conseguem segurar as presas. O bico alongado e pontiagudo se curva, apontando contra o peito. As asas estão envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas, e voar já é tão difícil! Então, a águia só tem duas alternativas: morrer... ou ... enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar 150 dias. As águias frágeis, desprovidas de coragem, sucumbem ao envelhecimento. As mais corajosas, valentes e audaciosas tomam uma decisão radical: se refugiam no alto de uma montanha e iniciam um processo de automutilação.
É verdade que algumas águias vivem cerca de quarenta anos, é verdade que depois de certa idade elas não mais conseguem segurar as presas nem voar com a mesma desenvoltura. No entanto, esse processo de automutilação para o prolongamento da vida não existe, jamais foi constatado pelos ornitólogos.
A automutilação em animais ocorre em casos de doença e em situações de estresse principalmente quando mantidos em cativeiro. Não há registros dessa ocorrência fantasiosa fruto da imaginação fértil de algum denodado criador de parábolas exemplares. 
Tudo não passa de uma fantasia grotesca, pois a automutilação em animais só aparece como condição patológica, como situações de estresse, doenças de pele, etc. A auto destruição não é uma situação normal em homens ou em animais, e de jeito nenhum pode ser tomada como símbolo de renovação. Quem diz uma bobagem dessas não entende nada de natureza nem de símbolos...Numa das versões que eu vi [...] foi acrescentado um detalhe: para explicar de que jeito a ave sobrevive nos 150 dias de retiro, explica-se, candidamente,  que "as outras aves do bando a alimentam, nesse período".
Isso é impossível: a águia é um animal solitário, não vive em bandos.
É preciso lembrar que as escolas têm como meta usar a Internet na educação de crianças e adolescentes. Não deveríamos ensinar-lhes também a discernir entre verdade e mentira grosseira? Entre realidade e fantasia absurda?


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